Estudo avaliou durante um ano os preços de produtos ofertados por bancas agroecológicas e convencionais da feira livre municipal, comparando-os com os produtos do mercado 

Comprar alimentos na feira livre municipal de São Lourenço do Sul traz uma economia de 32,7% aos consumidores. É o que aponta a pesquisa desenvolvida pela estudante de Agroecologia do Campus da FURG em São Lourenço do Sul, Isabela Fredes de Freitas, realizada ao longo de um ano – entre setembro de 2020 e agosto de 2021 – no município.

O estudo comparou os preços praticados por duas bancas agroecológicas e duas bancas convencionais da feira livre, e duas redes de supermercado da cidade, buscando avaliar se os preços dos alimentos orgânicos comercializados na feira seriam ou não mais caros quando comparados aos convencionais.

Além de Isabela, contribuíram no desenvolvimento e nas discussões do trabalho, a também estudante do curso de Agroecologia da FURG, Thielle Vieira Pinho; a pesquisadora do Instituto Kairós, Thais Silva Mascarenhas; o mestre em contabilidade, Roberto Caldeira Lopes, e os docentes do campus São Lourenço, Eduardo Guatimosim e Liandra Peres Caldasso.

Como foi realizado o estudo

Para a coleta de preços, foram selecionados 16 alimentos que compõem uma cesta básica padrão, com grãos, legumes e hortaliças. A escolha levou em consideração também a sazonalidade dos produtos. Dessa forma, foram escolhidos exemplares que estivessem presentes em pelo menos quatro dos seis empreendimentos avaliados, bem como, disponíveis em ao menos oito dados de coletas. “Para que a gente tivesse uma pesquisa mais robusta, com valores mais próximos dos reais, criamos esses fatores condicionantes que delimitariam os produtos que entrariam na cesta”, explica Isabela.

As visitas eram feitas sempre aos sábados, de preferência no primeiro final de semana do respectivo mês. Para permitir a comparação entre os preços dos produtos comercializados nos dois diferentes locais, também houve a preocupação em padronizar as unidades de medida.

Com a realização da pesquisa, foi possível perceber que a cesta de alimentos na feira – considerando a média entre feirantes agroecológicos e convencionais – é, em média, 32,7% mais barata que uma cesta contendo os mesmos produtos, quando adquirida no supermercado.

As cestas dos feirantes custam em torno de R$60,00, sendo a cesta agroecológica apenas R$0,84 mais cara quando comparada a cesta da agricultura familiar convencional. Já a cesta do supermercado, que custa em torno de R$90,00, provoca uma diferença de até R$30,00 reais mensais a mais para os consumidores. Em um ano, uma família que consumiria apenas a cesta do supermercado teria um gasto de R$360,00 a mais do que se comprasse os mesmos produtos na feira municipal.

O produtor rural agroecológico Reginaldo Ritter, que participa da feira com a esposa Almira e a filha Michele, diz que gostou de ter contribuído com o estudo. “Fiquei feliz de ter feito parte da pesquisa. Eu sempre fui a favor do preço justo para os dois lados, tanto para o produtor, como para o consumidor. Se os nossos preços são mais baixos que os do mercado, para nós está bom”, aponta Reginaldo.

Estímulo para a pesquisa

O contato de Isabela com a feira e com os produtores rurais se intensificou a partir de 2018, por conta da universidade. Ela relembra que durante o curso de bacharelado em Agroecologia, os alunos realizaram diversas saídas a campo nas propriedades rurais dos agricultores que fazem a feira. “Em 2018, através de uma disciplina específica, me aproximei de duas famílias de agricultores agroecológicos em particular que compõem a feira de São Lourenço. Nessa disciplina os discentes, de forma horizontal, constroem um projeto em parceria com uma família de agricultores. A partir desta experiência, passei a frequentar a feira como uma forma de rever os amigos e por a conversa em dia”, detalha.

Em 2020, a pesquisadora se tornou bolsista da Incubadora de Empreendimentos de Economia Solidária (Ineesol), e consumidora do Grupo de Consumo Responsável (GCR) Jerivá, projeto desenvolvido na incubadora. “Inicialmente, meu trabalho como bolsista da incubadora seria analisando os dados gerados a partir dos ciclos de consumo que ocorriam no Jerivá, porém, para além dessa iniciativa, pensamos em criar uma pesquisa que sanasse nossa curiosidade em relação aos preços praticados nos diferentes canais de comercialização aqui do município”, explica.

O intuito seria desmistificar a crença de que alimentos orgânicos seriam mais caros do que os convencionais. “O que queríamos ver era se esse ‘padrão’ dito como uma verdade universal, se repetia em nossa cidade”, relata. Para isso, o grupo se baseou em uma pesquisa anterior, realizada pelo Instituto Kairós e pelo Instituto Capina, que também buscou entender como se davam os preços em diferentes canais de comercialização.

A valorização da agroecologia e dos circuitos curtos de consumo

Para Isabela, além do impacto financeiro, é importante optar pela agricultura familiar e agroecológica para valorizar as pessoas e os circuitos curtos de comercialização. Ela explica que com o trabalho desenvolvido por meio da universidade, a equipe pode perceber que o preço dos produtos orgânicos em determinados produtos varia na feira. “Às vezes, são mais baratos que os produtos convencionais, e às vezes mais caros. Essa diferença é singela, algo que não chega a R$1,00 real na maioria das vezes, e mesmo que o consumidor opte em consumir os produtos da agricultura familiar convencional, ainda sim vai valorizar as pessoas”.

Entendendo que através dos circuitos curtos que é possível enxergar o consumo como um ato político, Isabela diz ser importante ultrapassar a lógica mercadológica e capitalista. “A valorização desta forma de comercialização é importante, pois além de ser uma forma mais humanizada de consumir, estabelece um elo de confiança entre quem consome e quem produz, e essas relações vão além de uma relação de compra e venda” relata.

Assim, ela visualiza os circuitos curtos de consumo como uma possibilidade de resistência cultural e alimentar. “Em um mundo onde podemos consumir qualquer produto em um supermercado, por exemplo, baseado na impessoalidade, sem estabelecer nenhuma relação com as pessoas e atores envolvidos, a feira, aqui em São Lourenço, é um espaço de reprodução social e cultural, com trocas de experiências entre agricultores e consumidores”, percebe.

A pesquisadora entende que em um sistema agroecológico, a diversidade biológica é vital para o equilíbrio do sistema e a independência de insumos externos. “Um produto agroecológico é todo aquele em que foi produzido em um sistema orgânico que seja ecologicamente viável, economicamente sustentável, e socialmente justo”, finaliza.